quinta-feira, 08-01-2009 às 09:10 | 1665 palavras | 2 Comentários

As melhores coisas…

Das melhores infâncias

Todos se espantavam ao ouvir o tempo que ela já vivia conosco:
- Dezoito anos?!?!?!".
- É, ela está cega, surda, só não está muda e não rejeita carne nem nas piores dores da velhice.

Minha mãe jurara que nunca mais ia querer um desde a morte precoce do Totó – cão que morreu de uma doença cujo nome não sei, não o conheci.
Mas o negócio aqui em casa funciona diferente, desde criança quando um dos cães que moravam com a gente – (vindo de rua como sempre) chamado Negão/Pidão, ou qualquer coisa com ão – faleceu e nos próximos dias aparecia um filhote que invadiu meu quintal e chorava eu simplesmente dei comida e arranjei um cantinho pra ele…e o coração de mãe, sempre amolece.
Mas com ela foi diferente, porque desde que eu também era um filhote meu pai trazia pra casa uma bola amarela a qual mais tarde eu iria fazer todas as travessuras infantis possíveis. Pregadores nas orelhas, bikinis ou agasalhos, amarrar a corda e sair andando de bicicleta, dar rasteiras, brincar de corrida, tudo isso trazia sempre uns joelhos sangrando e umas mordidas na mão. – Ela era uma cachorra, não um boneco, afinal. – E eu era humana, não um tapete pra ser arrastada. blush
A gente sempre tentava ensinar ela a não pegar os passarinhos no quintal, mas como muitos vizinhos já disseram, seu corpo era parecido com cão de corrida, leve e ágil, lá ia ela pegar o bendito pardalzinho sobrevoando sua ração no quintal.
Já minha tia dizia que ela sorria. Porque toda vez que voltávamos de viagem ou ela vinha nos visitar, pelo portãozinho de arames que tinha na casa antiga, ela pulava numa altura considerável e arreganhava os dentes pra fora…Como se realmente sorrisse, na maior felicidade. Essa atitute já não era muito feliz nos dias de chuva…Sempre que faltava um tempo pra chover, ela sentia, pelas orelhas, pelos rabos, seja lá onde! E começava a pular freneticamente na janela até a porta da cozinha ser aberta pra ela se abrigar – era bem engraçadinho ver a cabecinha dela surgindo na janela, vendo um filme, novela, sei lá…lá estava ela…chorando desesperada, cabeça sobe – desce – sobe – desce. Mas aí ela aprendeu que fazendo o mesmo na porta uma hora sua pata ia enroscar na maçaneta e a fuga pra dentro seria feita secretamente, ou melhor, seria secretamente se no momento que ela conseguisse entrar não se enfiasse embaixo da cama tremendo ou pedindo carinho. Era assim com trovões, foguetes, qualquer com que a ameaçasse sem ela saber a origem.
Deixar ela com raiva ou empolgada demais sempre trazia risadas. Toda vez que ela ficava assim agitada pegava o primeiro tapete de porta e sacodia ele batendo as pontas no chão, nunca mais vi um cão fazer isso…E eu adorava, puxando uma ponta parecia a brincadeira do cabo-de-guerra, ela puxava de um lado rosnando divertida, e eu do outro, até a mandíbula de uma das duas cansar…O que a gente não faz aos cinco anos né? spin Ainda por cima, depois de brincar o dia inteiro…Ela se deitava de lado e eu com a cabeça em cima da barriga dela dormia. E ela nem aí, dormia também.
O verdadeiro sufoco aconteceu quando uma bactéria se infiltrou nela…formava umas bolotas bem feias, e ela teve de fazer cirurgias. Além disso, minha rua era bem tranquila e os vizinhos bem conhecidos, virava e mexia, era só deixar o portão sem enroscar, ela o puxava com aquela patinha fina e literalmente voava pra carniça, nessas horas não adianta chamar, lá ia ela mijando em toda plantinha, o cômico era ver como ela era nojentinha, mijava de pernas levantadas, pro xixi não encostar nela, igual macho faz! Fora que pra pegar comida da nossa mão era maior delicadeza, e quando dávamos arroz e carne, ela ia comendo com aquela cara engruvinhada pegando com a ponta da língua as carnes e deixando puro arroz…Enfim! Voltando às ruas, lá ia ela toda feliz mijando em tudo até aparecer uma cadela maior e as duas se pegarem lá mesmo. Isso era foda, porque quanto mais eu gritava com as duas mais elas se pegavam, eu chorando desesperada xingando a filha da puta da cadela até a última geração. Uma dessas brigas deixou uma cicatriz enorme no seu "braço" esquerdo.
Ela só teve direito a três crias até meus pais levarem-na pra castrar – coisa bem estranha, afinal, depois com outro cachorro era ela quem queria subir nele – eu lembro que quando minha mãe ia lavar os quintais da frente, lá iam eu de bicicleta cambaleando, ela, e mais uns 6 cachorrinhos latindo e se embolotando pra chegar primeiro…Foi assim até minha mãe dar muitos deles e sobrar um que era da vizinhança e se chamava Piloto. Ele nada tinha a ver com a mãe…Ela era loira, ele branco de manchas marrons. Algumas vezes ele saía da casa do dono, que por sinal, morreu depois dele, e vinha pra casa filar bóia da mãe, bem coisa de homem, não acham? E foi numa das brincadeiras de corrida com ele que quase parti meu joelho ao meio, eu e ele nos trombamos feio no corredor uma vez, bati na quina do contra-piso, bemloco! Eu lembro que nesse dia uma amiga estava em casa e disse: "- Não é a toa que o nome dele é Piloto!". Soou hilário pra mim naquele dia.
E o melhor de tudo é o quanto eu sabia que éramos nós duas e ela protegia a família inteira. Podia ser meu próprio pai, se me pegasse e me balançasse no ar ela vinha pra cima dele pulando e latindo até ele soltar. Se era desconhecido ela ameaçava morder.
Deu dó quando ela ficou com ciúme daquele cachorrinho que eu falei que apareceu no meu quintal. Certa vez eu peguei uma caixa pequena pra ele dormir…Não é que ela tentou caber naquilo?! E queria dormir lá também. Eu tive de arranjar outra caminha digna pra ela também. Ela sempre demorava pra se acostumar com um novo cão…Foram dois na verdade, Sultão – que sumiu do mapa, penso até hoje que me roubaram ele, por ser muito amável com crianças além de grande, e lindo – e a atual Meg – que nunca saiu de casa, ela é alegre demais pra ser treinada.
Como todo cão, ela foi ficando velha, sua idade era a mesma que a minha, pois a pegamos quando eu tinha um ano de idade. Aos 16 anos já estava ficando cega e só escutava o que queria, porque quando se tratava de comida ela vinha mesmo assim. Era de cortar o coração quando começaram as dores da velhice…Ela travava, não conseguia deitar direito, eu ficava a noite inteira fazendo carinho e tentando aliviar a dor dando um remédio no meio do presunto…Ah! Não comentei? Ela era impossível pra tomar remédios. Começou a ficar difícil até pra viajar, pois ela poderia cair sozinha e se machucar, igual gente de idade mesmo, levamos-na uma vez na viagem de natal – ano novo, até que deu certo. Nas outras vezes alguém vinha tratar dela e da Meg.
Vivia chorando em casa, mesmo quando não tinha dor, eu penso. Ás vezes mal dava pra escutar, só aquele fiozinho de sofrimento, que ninguém mais sabia o que podia ser ao certo. Mas tinham dias que eram impossíveis e aí começamos a levá-la ao veterinário e dar remédios especiais.
Ano passado já ficou bem clara a minha desanimação em viajar, viajar pra mim é um saco as vezes, odeio fazer e desfazer malas…Odeio ir pra algum lugar onde não há nada pra se fazer.
Chegando de viagem, no dia 4, sem tempo pra pensar em nada tudo que vi quando cheguei foi a coitada deitada quase imóvel chorando, berrando. Mais tarde meus pais trariam uma carne pedigree, e remédios.
Minha mãe passou uma noite em claro tentando dar remédios pra aliviar a dor, deram soro, leite…e tudo ela vomitava. Eu passei quase uma noite em claro, tentei dar leite, ela rejeitava carne e isso não era bom sinal. Quando eu ia lá aonde ela estava, fazia carinho, ela até sossegava, dormia um pouco, mas era só sair, passava um tempo ela voltava a chorar. Eu também chorava.
Na manhã seguinte era meu pai quem a levaria pro veterinário e mais tarde diria que mesmo sedada e tomando soro, nada melhorava. Na madrugada que ela ia passar lá, parecia que eu sabia que ela ainda estava mal, é psicológico, mas o choro dela não saía da cabeça. Assistindo A grande família, tentando dormir a TV quase sai do ar, coisa que nunca acontece. Eu chorei quase a noite inteira, e de manhã não foi surpresa saber o que havia acontecido.

Foi ano passado mesmo que eu descobri o porquê de seu nome. Foi porque na casa aonde eu morava, eu era amiga do neto do dono, Renato. E pelo que eu entendi eu chamava a cachorra de Tato, tentando chamar de Renato blank E aí resolveram chamá-la de Tati. E eu aposto comigo que ela, de fato, sorria. sad

AMOR

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Comentários para As melhores coisas…:

1

Eu sempre quis te rum cachorro de estimação, mas como meu pai não gosta, não pude ter. Hoje em dia não sei se teria, dá muito trabalho de cuidar, mas a maioria dos meus amigos tem e vejo o quanto eles amam esses bichinhos, vira gente da família mesmo… E até eu me apego. O namorado de uma amiga tem uma labradora que acabou de ter filhotes, nessa semana. Acompanhei a gravidez dela, vi os filhotes, tão lindo!
Bjitos!

2

Sinto muito pela Tati, Dedê. Eu sei o quanto é doloroso imaginar como é perder um cachorro, eu tenho o Scooby desde os 10 anos de idade e qdo eu achei q ele ia ser sacrificado eu quase pirei, chorei e chorei. Mas perder é uma dor que eu ainda não senti, apenas imagino…

Beijos. Fique bem!