Vergonha na cara faz bem, e eu só vou tomar quando ficar de férias. Espero que exista vida social além da faculdade, e que também sobreviva a esta semana que virá. Até já! oculos

Cansada logo de dia, a bolsa pesada incomodava no ombro. Subo no trem que com muita sorte está vazio e consigo me sentar para descansar a mochila e pegar algo dobrável para me abanar.
Enquanto espero as quatro estações para seguir meu caminho até outro metrô e de lá passar mais um tempinho – se mais uma vez tiver sorte, sentada – fico observando um sem número de pessoas, olhando para o nada, mexendo no celular, arrumando o cabelo, ou vendendo chicles.
Na primeira estação poucas pessoas entram, dentre elas uma senhora bem velhinha, que logo se sentou no seu assento preferencial. Fico imaginando como pessoas tão velhas pegam esses trens, sujos, que muitas vezes andam cheios e ninguém nunca cede lugar. Ora, mas não é porque são velhos que não podem sair por aí se aventurando – penso. Também imagino como seria se minha avó pegasse trem, delicada e frágil como é, mas na confusão para entrar certamente iria rir muito, isso se não tivesse um infarto fulminante ali mesmo, na porta. Mas isso nem ela e nem eu podemos pensar, pois ela tem medo de morrer, e eu temo perdê-la.
O alarme para que as portas fechem toca, e quem não consegue entrar espera o próximo. Um homem bêbado em um dos bancos ao lado discursa efusivamente sobre os problemas políticos no Brasil, ao passo que seu recém-conhecido colega de banco balança a cabeça com obediência, afinal, não é sensato contestar pessoas que bebem além da conta em dia de semana em plena luz do dia.
Os vagões seguem com o mesmo ânimo dos passageiros, a morbidez e o calor tomam o ambiente, e cada um olha pela paisagem que passa rapidamente nas janelas entreabertas, ansiando para que as paredes dos prédios e o mato parassem de simplesmente passar e chegassem logo a seu destino. A segunda estação chega, é a mais próxima entre as outras que virão. Ninguém desce, uma pessoa sobe, e o alarme anuncia a partida para a trajetória a cumprir. As pessoas normalmente descem na penúltima estação, algumas ficam para a última, e receio que estas tenham de enfrentar algo muito pior.
Mal havia visto duas garotas nos bancos logo à frente, de costas para mim. Vejo como o cabelo de uma fora pintado com a cor roxa, e o da amiga louro claro. Como é que não as vi antes? Elas estão rindo sem parar, e eu só descubro que as percebi porque estavam falando sobre o bêbado perto de mim. Pelo que entendo, elas acham engraçado o homem mal conseguir pronunciar as palavras, e o imitam, sem disfarçar. Minha mãe teria me dado três tapas na boca e um sossega leão se eu fizesse esse tipo de coisa.
- O zê o zê zabi qui ta aqui ó, o dia da eleçãopápresdente! Tássim bracontecê ó! Ieuvotu! euvotu neli purque é bom presdente! Né nóminina?
Paro de olhar as garotas, e pra minha surpresa ou tristeza a menina era eu. As pessoas lançam um olhar engraçado quando veem esse tipo de situação, uma moça com roupas de ginástica assiste a tudo como se eu fosse realmente responder algo digno. Só uma pessoa não olha, a senhora, que fica de cabeça baixa. Concordo imediatamente com o moribundo e viro-me depressa para olhar os prédios por trás dos muros que cerceiam os trilhos do trem.
Chego à terceira estação e me dou conta de que as risadas cessaram, nos bancos mais à frente jaziam duas meninas que partiam para as ruas além daqueles muros. O ar seco faz minhas narinas arderem, e só então me lembro que esqueci o remédio.
Fico irritada com a mulher estranha e pensativa com um saco de tricô que agora tenta passar por cima de minha cabeça para colocar a cabeça na janela. O que é muito estranho, pois já não estava mais calor. Porém ela estava mesmo era a observar algo lá fora, provavelmente uma pessoa, e fazia isso sem discrição.
A moça, distraída que estava, não percebeu que o trem ia deslanchar, o que fez com que ela sentasse num solavanco e derrubasse sua sacola com ovos. Absurdo, pois nesse mesmo dia eu já havia visto uma garota deixar um pastel de feira na calçada, que dirá a galinha que botou esses ovos? Desperdício de comida.
É hora de me preparar para descer, são mais cinco minutos até a próxima estação, porém essa viagem é o que mais me intriga. O bêbado ronca ao lado do seu colega, um casal está sentado aonde sentavam as duas meninas tagarelas e fazem totalmente o contrário de rir, brigam, e eu presumo que seja porque o rapaz deu uma olhada não muito inocente na moça com roupa de ginástica. A moça com o saco de tricô sujo de ovo agora está com cara de quem viu um fantasma. Só uma pessoa não se mexeu, a que estava sentada com a bolsa no colo e sentindo frio. Eu.
Finalmente a quarta estação, a minha última, e a penúltima para os que ficam. Com satisfação me levanto e guardo um casaco recém-tirado de volta na bolsa. Não faz mais calor, não faz frio. As pessoas se aglomeram na porta e se seguram. As portas abrem num movimento de liberdade, uma escada rolante me espera. O ar teria um cheiro muito mais agradável se os trilhos não cheirassem a ferro queimado.
A maioria desce, e eu continuo com dó de quem descerá na próxima. A velhinha se apóia no corrimão. O bêbado ainda ronca e acredito que alguém terá de acordá-lo, pena que não será seu colega de conversas.
Mas até que uma coisa faz sentido: pessoas idosas não saem para se aventurar, mas sim para ir ao médico, na 25 de Março, ou para encontrar algum colega, também idoso, no bairro dos poodles brancos. Isso lembra que minha avó, uma hora dessas, faz comida e matraqueia com a empregada.
Quando lanço um olhar rapidamente ao trem parado, a moça com o saco de tricô se levanta abruptamente do assento em que estava e corre para a escada rolante. Subimos muito perto, me encolhi para que a sujeira dos ovos quebrados não respingasse em mim. Talvez eu não queira saber o que ela viu, me importo com coisas importantes.
A escada chega ao fim, e todos seguem um rumo diferente.

Nota de rodapé: Texto inspirado em Clarice Lispector – Amor e Fernando Pessoa – Num meio dia de fim de primavera

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