Sabem aqueles filmes de terror com aquela cena clichê onde a mocinha abre o armarinho do banheiro pra pegar fio dental e quando ela fecha dá de cara com o capeta? Pois é! Só que comigo não foi o capeta e sim a praga em pessoa, e ao invés de pegar fio dental eu estava simplesmente penteando o cabelo pra ir à escola.
Agora pensem naqueles filmes onde a cena se passa em câmera lenta: eu com uma coceirinha no pescoço, me coço e me distraio, e quando olho de novo pro espelho lá está ela, maleficamente tentando me matar.
Claro que eu fiz o que qualquer pessoa em sã consciência faria: gritei histericamente e me descabelei toda batendo as pernas andando pela casa. Um pernambucano pensaria que estava numa apresentação de frevo. Fiz tudo isso ao mesmo tempo e descontroladamente. Até que chego no corredor e dou de cara com a minha mãe. Ela não é nem um pouco feia, mas sob efeito do susto eu gritei, e assustada ela gritou também e correu pro quarto. QUE TIPO DE MÃE ABANDONA A FILHA COM UMA ASSASSINA DESSAS????
Não sei como mas consegui parar de dançar lambada e explicar pra minha mãe o que aconteceu. Eu passei o dia igual um Tarso. Parecia que tinha um chip em mim, ninguém podia nem encostar.
Anos se passaram, e minha repulsa pelo inseto só cresceu. Eu nunca soube aonde ela foi parar, mas checo os bolsos dos meus casacos e calças até hoje.
Claro que todo mundo vai pensar ah, toda mulher tem nojo de qualquer inseto ou sapo e faz escândalo, mas comigo isso não acontece. Eu não tenho medo de ratos, já criei um monte de topolinos e ratos não sobem paredes – o que me dá vantagem, já que durmo a uns 2m do chão -, também não tenho medo de sapos porque na roça onde minha avó mora vive enfestado daqueles sapos gigantes estilo o pai da princesa Fiona, e eles nem se mexem. Lembro desse último Natal: quatro da manhã eu e minha prima estávamos no banheiro – lá o banheiro é grandão com vários chuveiros, porque alugamos sítio e no sítio deste ano era alojamento – eu escovando meus dentes tranquila, de repente minha prima passa a uns 100km/h gritando atravessando o banheiro em direção ao quarto.
Ela acordou minha avó, dá pra acreditar? Falou que tinha um sapo lá dentro. E lá fui eu escovando os dentões procurar o meu príncipe encantado quando dou de cara com uma ínfime pererequinha de 5 cm de diâmetro me olhando de lado e dizendo: How you doin'?.
Confiar em primas cuja mãe já botara medo desde criança e cuja frescura é eminente seria bobagem, o pior foi que uma tia minha entrou no banheiro me xingando, pois depois do escândalo só tinha sobrado eu no recinto. É como se no maternal uma criança jogasse uma generosa bola de papel na nuca da professora e eu estivesse no mesmo perímetro do malcriado.
Enfim, sapos são mais o estilo definido pelo Leandro Hassum no Jô. Eles chegam lá, ficam parados, ninguém puxa papo, e vão embora depois. E adoram uma festinha de fim de ano, ou casa de praia. E casas de praia em plena temporada atraem bichos como o quê ein gente hum?* Baratas!
O negócio fica feio quando se trata de baratas. Eu travo igual a uma mula no meio da estrada rumo a Goiás. E o pior é que elas sentem o cheiro do medo!
Ontem de madrugada levantei, ou melhor, desci pra tomar uma água na cozinha (só quem conhece litoral – especificamente Caraguatatuba – entende o calor excruciante que faz aqui) quando topo com a dita cuja entre a porta da sala e a abertura da cozinha. Rá! Nessa hora em algum lugar tocava a música dos duelos dos faroestes.

Minha visão quando saí do quarto
Pequei a Ipanema azul-perereca da minha mãe – eu não ia matar com meu próprio chinelo, é como se o espírito dela fosse habitar na sola dele, urrgh – e joguei pra cima da maldita.
Eu não acertei – o que era previsível já que estava a uns dois metros do alvo no mínimo – e a parida-por-uma-praga foi se esconder atrás da máquina de costura que está temporariamente em uma parte da cozinha (o fundo de casa está em reforma).
@$%#¨&!!! Volta aqui, vadia manipuladora! – pensei enquanto futucava atrás da máquina, acho que o elogio veio de algum filme com uma mulher muito mandona, o palavrão é meu mesmo
. E quanto mais eu mexia mais ela se escondia. O pior é que se eu chamasse minha mãe haviam fortes chances de meu pai acordar e ficar muito estressado. Foi quando eu estava desistindo e indo tomar água que avistei mais uma forasteira, essa era um pouco menor. Ótimo, chamou sua amiguinha, né? Sentei a Ipanema azul na impostora, abri a geladeira, peguei minha garrafinha made in Finland, corri pro quarto e fechei qualquer fresta digna da curiosidade da vilã. Ela não morreu, diz minha mãe que não viu nenhum cadáver embaixo do chinelo no dia seguinte.
Só duas coisas me deixam neurótica e me fazem ter pesadelos: baratas e ex-namoradas/pegas de namorados. Adivinha com quem eu fui sonhar naquela noite? Com a ex, claro
(nada contra, é só um problema psicológico que vou resolver aos 80 anos, quando for viúva).
Tendo passado o dia com um calor capaz de dissecar minha pele como uma uva passa assistindo House M.D. e ao bon apetít de batata recheada, me despedi do namorado à noite. Quando estava quase saindo pelo portão ele para e vira: Ah, esqueci de falar… – tá, eu também te amo muito mimimi coisiquiquica – Tentei matar uma barata no seu quarto e não consegui.
Minha cara torceu como se eu fosse morrer em 7days. E o filho da mãe foi embora e me deixou sozinha pra resolver o pepino. Se começou que terminasse! (isso soou estranho, não ria).
Com a Ipanema azul em punho eu enfiei cuidadosamente minha fuça pela porta. Nem precisei procurar muito, ela estava quase no meio do quarto. Então tu voltou né, Vandaime Chuazéga?
Veja, o problema é que eu tenho uma baita má vontade pra fazer isso. Aqui em casa quem toma conta do serviço sujo é a Meg ou minha mãe, no caso da cadela (vou deixar vocês pensando) é só gritar que ela vem e mata. Só que essa noite a falta de consideração e a preguiça tomaram conta dela, e eu tive que lidar com o monstro sozinha.
Me aproximei vagarosamente dela, só que eu fiquei com nojo dela botar as patinhas em cima da minha sandália de gladiadora turca, então chutei o sapato. A bicha me dá um cinco minutos, roda duas vezes e foge. Eu nem preciso simular os palavrões nem a borração de calça que teve quando ela se mexeu. Daí que ela se enfiou no cantinho da minha cama e depois debaixo do baú que é acoplado à cama. Chupa essa! – ela deve ter pensado.
Muito injuriada, comecei a planejar a madrugada. Eu não iria dormir no mesmo cômodo que uma barata nem sob pressão de uma arma na têmpora! Fui pra sala, peguei o celular e fui infernizar o namorado pra tentar entender por quê ele não tinha matado, porque ele não me amava o suficiente pra me salvar, porque é bambi e não quer contar ou porque ele tem um plano maquiavélico contra mim. Só podia ser. Eu fico com a primeira, pra fazer drama
.
Passado um tempo, fui ao meu quarto, tomando todo cuidado possível. Ao entrar, deve-se olhar bem as molduras da entrada, chutar a porta pra ver se nada sai voando, enfiar a cabeça e gira-la 360º na vertical pra ver se ela não te espera feito um balde de água fria como em armadilhas infantis, observar toda a área e calcular as chances para fugir, e, por fim, entrar e procurar onde os olhos não alcançavam da porta.
Eu imagino que a barata tenha entrado pela janela do banheiro, porque até hoje ela não tem vidro, não teria como ela entrar pela sala dessa vez porque eu a teria visto ou sentido seu cheiro (sim, baratas têm cheiro). Imaginei isso logo que olhei pro lado. Lá estava ela toda beiçuda andando perto do meu ralo (
). Merda, cêmeacho!
Voltei pra sala e peguei a ipanema que tinha deixado quando tinha perdido as esperanças. Cheguei bem quietinha na porta do banheiro e joguei o chinelo. A anta desembesta pro meu lado. Mais uma vez: não preciso simular o berro e os pulinhos de frevo que dei. A essa altura eu já estava muito fula com a Meg, que não apareceu pra me defender. Até que minha heroína aparece, de pijamão mesmo.
Minha mãe pegou a vassoura e veio pro meu quarto com cara de assassina. A barata tinha se enfiado agora no canto do meu guarda-roupa. Tivemos – na verdade ela teve, eu estava a uns 2m dali só pra garantir – de arrastar o armário pra enxergar o inseto. Depois de umas quinhentas vassouradas e de minha mãe dizendo: Tem que matar com vassoura, não adianta nada jogar o chinelo, mimimi a Meg enfia a cara pela porta semi aberta por causa da muvuca, e quando a barata morta é varrida ela a abocanha e a leva pra fora.
A questão agora é: a barata tinha se enfiado num canto, ela não teria motivos pra sair de lá e ir até o banheiro pra ser vista. Seriam duas baratas, então?
Bom, agindo como qualquer indivíduo em sã consciência e desprovido de venenos porque se esqueceu de pegar na compra há dois dias, fiz uma barreira com Veja Perfumes da Natureza de Frutas Vermelhas na porta entre o banheiro e o quarto, e também na janela do banheiro. E seria capaz de dormir com o desinfetante do meu lado.

Barreira muito eficiente contra baratas (not)
Resumidamente todo mundo já deve ter concluído meu transtorno psicológico. Não sou retardada, essa forma de defesa eu só uso contra os insetos, contra os insetos.
Filmes, séries, comida e livros.

