quinta-feira, 15-07-2010 às 10:19 | 1166 palavras | 10 Comentários

É tudo premeditado, minha filha…

Disfarce e continue andando.

Há uma semana mais ou menos eu passei pela mesma experiência que muitos homens e mulheres de todas as idades passam: a desculpa esfarrapada, vulgo mentira.
Eu me surpreendi comigo mesma numa loja em um Shopping bem distante de onde moro. Meu primo queria conferir esta loja que estava com uns preços bons, e aparentemente não havia nada muito em conta para mulheres (pobres) como eu, restava esperar.
Enquanto ele experimentava duas calças em meia hora – foi pelo menos uns vinte minutos de espera e eu me senti um daqueles maridos impacientes os quais acompanham a mulher pra comprar roupa e só pensam em sair pra fumar ou chegar logo em casa pra assistir ao jogo – uma vendedora simpática (como todas) perguntou se eu gostaria de olhar alguma coisa. Depois desse instante eu comecei a considerar os vendedores muito mais competentes do que qualquer banco de dados SQL, foi só eu mencionar a palavra CALÇA e já haviam sido depositadas umas vinte peças em jeans na pequena mesa, o jeito era dar uma apalpada nelas. Hum…bonitas, vejamos o cós. OITENTA REAIS? – Ah, eu já tenho nessas cores. inocente
Pra completar, eu ainda comentei a falta de peças femininas na loja. Nesse momento a vendedora fala com toda a sua empolgação de comicionada: – Você devia vir amanhã, vai chegar mais de mil peças, pode encontrar o que quer.

Tá, eu vou explicar por que isso me incomoda tanto. Eu faço o tipo de cliente chata, entro nas lojas, vejo tudo, experimento, vejo o preço e não levo. Além disso, tenho espasmos estomacais quando eu acabo de entrar em alguma loja e o vendedor fica atrás de mim como se eu do nada fosse pegar a primeira calcinha da prateleira e varar a porta envidraçada sem pagar. Mais interessante é a frequência com que eu começo a ter dores de barriga bem quando eles aparecem. bravo Fora a velha desculpinha que a gente pega o costume de dar "Tô só dando uma olhadinha."
Assim, como se já fosse um instinto, eu falei à moça simpática: – Ah sim, mas que pena! timido Eu não sou daqui!
Se fossem meses, tudo bem, mas há dois anos eu moro em São Paulo, shame on me! Não deixa de ser mentira, afinal, eu realmente sou do interior de São Paulo. Bom, meus pais são, eu só estou aqui a estudo. E aí ela me pergunta: – De onde você é? - Ah, qual é?!

- Eu sou de Caraguá, estou aqui com ele. – aponto constrangedoramente para a portinha do provador.
- Ah, ele é seu namorado? – Namorado???? choque Há quanto tempo ela não vê um casal em Shopping. Desde quando namoradas esperam seus homens em provadores e ficam a ver navios em uma loja com roupas de marca? Meu conceito sobre namoros e Shoppings felizmente vai muito além de esperar meu namorado em provadores, normalmente, e fantasiadamente, quando vou a estes lugares prefiro estar rodeada de comida e presentes. Eu nem sabia que homens compravam calças, pra mim elas brotavam das pernas peludas deles, homem não gosta de comprar roupas, em três namoros nunca fui e nunca vi nenhum deles comprar roupas para ELES. Normalmente é sempre algo pra mim – hihihi.
- Não, não! Ele é meu primo. Além de toda a ideologia da roupa, tem um modo mais fácil ainda de distinguir casais. Basta olhar se eles entraram de mãos dadas na loja. Tirando ainda o fato desse meu primo ser a cara do meu pai quando menor (e magro, sem barriga de chopp) e portanto parecer um pouco comigo.
- Ah, achei que ele era seu namorado…

Mais um bom tempo passado, eu quase ligando por socorro pois ele não saía do provador, a moça começou a bater um papo o qual quase me fez me arrepender de ter mentido. Eu contei pra ela das praias, ela já havia visitado minha cidade, aliás, que ser humano paulista ainda não pisou no Litoral Norte de São Paulo, né?
Na primeira deixa da vendedora eu aproveitei e mandei um SMS pro meu primo dizendo: "Ow, eu falei que sou de Caraguá." pensativo , o qual ele foi ler depois quase na frente da outra vendedora enquanto usava a calculadora para checar as contas do cartão de crédito. Ele levou algo de lá, menos mal. Eu saí de lá sabendo que nunca voltaria para conferir as tais mil peças, as roupas chegariam no prazo, meu dinheiro, não.

Depois eu e ele fomos comprar um tradicional McFlurry com Alpino. Já não bastava o Alpino Fast não ter chocolate Alpino, o McFLurry muito espertinho trazia uns micropedacinhos marrons disfarçados do tal chocolate. Tenho saudades do Sulflair. Estávamos andando por aí procurando um banco pra tirar cascalho quando percebemos a proximidade da loja a qual havíamos acabado de sair. Como se fosse costume, saímos imediatamente de lá e demos a volta só pra não passar lá em frente de novo.


Foto de: We heart it.

Sabe como são aquelas situações onde você encontra uma pessoa conhecida andando na mesma direção, e aí você se despede e vai para o outro lado só pra não ficar aquele clima de "Opa, onde vamos? hehehe To sem assunto" tonto ou então pra não ter de tirar o celular da bolsa e fingir uma possível chamada com algum amigo.

Todo mundo faz isso ou é só um problema mental meu? Essa neurose de mentir pra vendedor. Se é dó, se é vergonha de dar opinião sobre o produto. E virou algo tão comum, eu faço e nem percebo, a única preocupação é em sair do assunto sem parecer ríspida e ridícula. É como se a gente pudesse moldar o diálogo pra ele nunca acabar de forma constrangedora. Se eu falasse "Então tá, amanhã eu venho!" minha consciência ficaria martelando e eu sonharia com a moça lá no balcão triste com várias roupas bonitas a me esperar. Por mais tosco que tudo isso soe, eu ainda prefiro acabar meus diálogos com um fim real (ou não), e falar do litoral poupou muito mais tempo à vendedora, pois eu não a enganei fingindo me interessar por algo.

Bastaria eu falar: F#d@-se suas peças, eu sou pobre e to com fome. Mas eu não posso falar isso. Posso? normal

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