Quem vos fala agora é mais uma pessoa que quer uma das 190 mil vagas para emprego. E acredito que muitos de vocês também desejam ou já desejaram, pois "Desempregado" assinalado em formulário não vale nada, assim como sua renda na hora de comprar uma máquina de lavar nas Casas Bahia em R$segurodesemprego,00 pode ser constrangedora. Até em conversas de família, quando alguém lança aquele olhar atencioso e pergunta carinhosamente: O que você vai querer fazer da vida? – nessa hora é importante aproveitar cada segundo que leva para a pessoa terminar a pergunta, isso te dá tempo pra pensar no que responder.
O que fazer da vida na verdade soa como uma missão a ser cumprida, como se cada ser humano tivesse uma obrigação de subir na vida e virar um esnobe vegan que aos 65 anos vai, finalmente, perceber que não devia ter feito administração e sim medicina. Hoje em dia ainda encontramos pessoas que fazem seus trabalhos com empenho e que não desejariam estar em outro lugar.
Mas pense em uma década em que a internet passa de seletivos usuários para alcançar as pequenas antenas da periferia, onde a cabeça das pessoas que nasceram há pouco funciona de forma diferente, almejando a única coisa que lhes trará o status desejado: dinheiro.
Só em 2009, ano em que comecei minha faculdade, de 80 alunos selecionados dentro da minha turma no mínimo 20 desistiram e optaram por outro curso ou ficaram estagnados. Teve gente que mudou até duas vezes de curso depois disso, e tem gente que termina o curso pra descobrir que não era aquilo que queria. Gente confusa essa, eu penso. Mas depois fica bem claro o que acontece com algumas dessas pessoas.
Pai rico, filho rico, neto metido. Eis o dilema. Meus pais não nasceram ricos, muito menos o são. Como qualquer família de classe média cuja mãe se esforçou para passar em concursos e concluir uma graduação temos nossas dificuldades. Isso não me impediu de perceber como ás vezes famílias de classe A vêm a participar da nossa farofada classe B. Já explico o por quê.
O pai, que pensa que é um Chris Gardner da vida, casa com uma moça (que não seria como a do Chris Gardner) e ela dá luz a três lindos filhos. Agora veja se já pensou dessa forma, o filho mais velho vira a ovelha negra, o caçula fica mimado e cheio de frescuras, e o do meio salva. Isso é uma observação minha, já vi acontecer várias vezes, então, você, caçula ou filho-do-meio, não se sinta rotulado, afinal, sou filha única e sempre vou ser tachada de mimada mesmo. Enfim, deixe a analogia dos três filhos pra lá e pense na sociedade hoje como está. Já imaginou como é, né? E não vai me dizer que pelo menos 50% dessas famílias contempladas pelo dinheiro abundante acaba na merda por causa da falta de perspectiva?
É aí que entra essa liberdade de expressão, onde eu, ou nós, jovens, lutamos por um mundo melhor. Mas até lá demora uns três anos pra finalmente deslanchar em uma profissão e sair por aí dando palestras sobre autoconfiança ou sobre como educar o filho sem ter de enfiar uma bela cinta de couro nas nádegas gordas do desgraçado.
Quando criança, aprendemos algumas das profissões ou seguimos o exemplo do pai advogado e da mãe dentista. Pra falar a verdade, medicina é a profissão hereditária. E acho que assim que conseguimos entrar numa faculdade os primeiros pensamentos preocupados são: "Aonde vou trabalhar? Como começo meu ganha-pão? Faço inglês ou espanhol primeiro? Curso técnico?". Eu mesma já fiz curso técnico de programação e optei pelo Jornalismo, o que gera um estranhamento por parte daqueles que me entrevistam pra um estágio: "Então – olha pro currículo e aperta os olhos pra ler meu nome direito – Adeline, você já fez curso de programação, é isso? Mas por que mudou tanto de área?". Bom, aí é que eu não posso sair falando que estamos no século vinte e um, que o desemprego toma conta do país por causa da falta de educação e de recursos pra isso, que todo profissional deve saber fazer um pouco de tudo, que quanto mais conhecimento, melhor, enfim, soaria mal educado e acho que todo ser que trabalha em RH e se mantém atualizado sabe disso.
Eu não sei o que se passa na cabeça dessas pessoas que não conseguem ter o mínimo de força de vontade pra fazer a diferença, mas entendo que boa parte dos problemas advém sim da sociedade e do modo como são criados os filhos. De que adianta uma herança gorda e um modo de administrar a vida sedentário? A conta emagrece até que se torne crucial a busca por um emprego na mercearia da esquina.
Por outro lado, e em geral, a procura pelo trabalho em pró da gratificação é grande, e mesmo que não seja por dinheiro, como acontece com os estágios que visam a experiência e aprendizado, a situação se torna preocupante. Todo mundo sonha consigo mesmo como um profissional bem sucedido de terninho pra foto da revista Valor Econômico, aquelas fotos em que se sorri expressando: Ó eu aqui no topo da pirâmide, mãe! Eu consegui! riaiririri sorriso Eu diria que essa, pra mim, seria a era do MT (Mercado de Trabalho), e que se não corrermos atrás do melhor pedaço do bolo, acabamos com a fôrma e as migalhas.
É por isso que falo que a culpa é nossa, mas não toda. Infelizmente a realidade é que até mesmo as empresas não sabem o que desejam. Fica complicado, por exemplo, esculpir um perfil do trabalhador perfeito. Sempre haverá um filho-da-mãe almofadinha de terno na fila de espera do processo seletivo se gabando pelos cursos caros fora do país e com um pai cuja agenda conforta milhares de contatos importantes. O que me deixa fula da vida. Estamos em um país de terceiro mundo onde grande parte da população até uns anos atrás era analfabeta e hoje tenta se reerguer da escravidão do Mobral com a maior força de vontade possível.
Pode parecer ridículo uma pessoa com tantas oportunidades reclamar, vão achar que estou traumatizada e descontando a raiva no mundo. Mas não é mentira quando digo que muita gente luta para obter melhor desempenho e merecer as regalias do trabalho enquanto indicações externas valem mais do que honestidade.

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