Quando eu era criança minha tia tinha uma loja de artigos para festas bem famosa no centro da cidade – que por sinal devia dar um lucro considerável – e trabalhava junto com meus pais na montagem e filmagem das festas. Por conta disso, quando chegava da escolinha usando meu invejável uniforme com uma estampa da turma da Mônica voando em um balão vermelho, ficava horas escondida entre as milhares de caixas que ficavam no depósito fuçando os mágicos brinquedos de plástico comprados na 25 de Março.
Coisas que toda criança sobrinha de dona de loja deve saber: é bem fácil arranjar uns quitutes e brinquedinhos de vez em quando, mas tente fazer isso sem que ninguém veja, do contrário, faça como Forrest Gump: corra, e ao fazer isso não deixe cair nada do que conseguiu surrupiar. E fuja também da funcionária da loja – que aliás é uma nordestina que já foi minha babá – ela dá um pouco de medo.
Mas todos sabem que quando somos crianças nada tira a inocência e pureza de nossas personalidades, o que faz com que os adultos sempre acabem nos perdoando e ainda nos levando na sorveteria mais próxima. Engano meu! Parece que minha adorável aparência de criança não foi suficiente, e ao crescer, minha penitência foi ajudar minha tia a produzir as festas. Chegando lá, empolgadamente pego os enfeites de mesa e corro para dentro do local, pois onde há mesa, há comida.
Mas ilusão de pré-adolescente é igual de pobre. E em pouco tempo lá estávamos a funcionária – que é nordestina – e eu sentadas nos bancos com uma caixa de molde entre as pernas e um compressor de ar ao lado enchendo balões.
E o negócio deu sucesso, pois toda inauguração de escola, almoço beneficente e festas de todo o tipo, lá estavam o compressor de ar, o molde, e minha inigualável cara de sono enchendo os balões cujo pacote com o desenho de um palhaço feliz começava a me irritar. Pior do que isso era voltar pra casa com cheiro de borracha e o pó branco nas roupas que me fazia espirrar e ficar com os olhos vermelhos, quem estava de fora não sabia que o pó era advindo de uma labuta incansável para fazer criancinhas felizes ou enfeitar uma simples porta, e olhavam pra mim como se eu fosse uma cocainómana sem causa. Sem contar as inúmeras vezes em que o balão tinha de voar no fim da festa e os outros ajudantes ficavam engolindo gás hélio pra conversar igual Tico e Teco.
E parece que esses orifícios de borracha me perseguem, numa festa grande de família, lá estavam eles, e como já havia tomado uns copos de vinho, me pus a estoura-los com o garfinho de bolo. E até os dias de hoje, uma vez estava morando em uma república, tive de encher com minha própria boca aquelas bexigas. O que me faz reforçar que nunca, nem por promessa divina, eu me amarraria em dezenas de balões estilo Carl Fredricksen inspirado em um certo padre, me enfiaria mundo afora e sumiria.
Já contei que saí daquela escola com os uniformes invejáveis aos choros de medo de um tal de Bicho Balão? Mas se eu soubesse que poderia fazer parte de um "show" teria me escondido entre as caixas no depósito da loja de minha tia onde brincava.
Filmes, séries, comida e livros.

