Parece que mesmo estando de férias eu não tive coragem nem criatividade pra postar. Acontece que eu estava tirando o sono atrasado da época da faculdade e também viajando com a família.
Como de costume, todo Natal nós vamos para um sítio com a família de meu pai, onde rola uma festinha, meu primo se veste de mulher (sem fotos por enquanto), meu tio toca um sino irritante pra acordar a mulherada, enfim, festa de família; e no ano novo acontece a mesma coisa só que na casa da minha avó (mãe da minha mãe), que mora numa roça. Quando digo roça é roça mesmo, de nem celular funcionar, e do carro ter ficado uns 20min atolado na lama perto do mata-burro (tem vídeo!
).
Toda vez que vamos pra lá passar ano novo eu faço as mesmas coisas: levo um livro, uma revista, tudo o que puder ler, depois durmo, acordo, como, converso, sem muitas novidades. Esse ano eu pude me contentar com o lançamento da Marian Keyes, Tem alguém aí?, que lia o dia inteiro deitada na cama. Até que chega a noite da virada e eu fico beliscando a comida da ceia, coisa que faz minha mãe me mandar arranjar o que fazer
.
Como já é de se esperar na minha avó, algumas pessoas vão embora logo no dia primeiro (outras chegam nesse dia) e a casa torna a ficar um tanto vazia (isso não acontecia quando eu era criança, antigamente praticamente todo mundo ficava e tinha meus primos pra brincar e subir morros). É aí que acontece a pequena muvuca na cozinha.
Eu estava deitada na cama, terminando a parte 2 do meu querido livro quando minha prima aparece na porta pedindo pra que eu vá com Hiago, filho dela, aprender a jogar Truco. Não que eu não soubesse, eu só não pratico muito
. Mas como ela me explicou que isso era pra fazer com que ele não quisesse ir embora, eu fui. Só pra explicar, esse meu primo é um rapazinho de uns oito anos que exemplifica muito bem as crianças mimadas. Desde querer tudo na hora até pensar que manja Truco.
Chego lá fora, numa pequena área, está ele e mais três primas, uma delas realmente prestava atenção. Quando vi que duas delas já jogavam com ele mandei formarem duplas e fui pra cozinha. Pronto, missão cumprida - pensei.
Na cozinha a janta já saía e eu como sou morta de fome já tinha pegado meu prato (isso porque não fazia muito tempo que tinha tomado café da tarde). Arroz e feijão preparados no fogão à lenha, carninha de porco, salada de couve refogada, maionese e farofa. Enchi meu prato igual um pedreiro que acaba de sair pro almoço da obra de um prédio com quinze andares.
A essa altura todo mundo já estava sentando pra comer também, e como a família é grande alguns foram pra sala e outros pra mesa da área lá fora.
Desci a garfada no prato e fui comendo. Arroz, bom, feijão, muito bom, carne boa, maionese, couve…
Minha garganta começa a arder de um jeito estranho e começo a achar que vou passar pelo apuro que passei quando tinha catorze anos.
Bom, não lembro de na época ter postado sobre isso, mas quando eu tinha catorze anos fiquei gripada e uma dor de garganta fez com que eu ficasse uns cinco dias sem enfiar nada na boca. Parecia que haviam agulhas e cada vez que eu engolia a própria saliva sentia uma dor horrível. Até que no quinto dia fui ao hospital e tomei uma vacina em cada lado da bunda, Voltaren e Bezetacil, e aí minha mãe fez uma sopa cheia de trecos com vitamina pra eu tomar, dois dias depois eu já tirava o atraso com um bife maior que o prato.
Então, como a garganta doía eu perdi toda a vontade de comer e comecei a enfiar a comida goela abaixo pra acabar logo com a tortura. Eis que surge meu tio que estava comendo na varanda.
- Essa taioba tá muito ardida. Não consegui comer – disse ele apontando pra panela de couve na mesa.
Acontece que a couve não era couve, e o que eu comi e fez com que minha garganta ardesse foi a tal taioba, que minha avó recolheu na horta e refogou como se fosse couve. E várias pessoas comeram com a vontade que se come a própria couve.

E a mardita lembra mesmo couve.
Só sei que depois de esclarecida a diferença entre a taioba misteriosamente ardida (dizem que geralmente não é) e a couve, muita gente com a boca lavada e estômago semi-vazio (pelo menos eu, que como umas duas pratadas
) foi pra sala ver novela. E de tanto falarem que ardia a garganta e a língua começaram as piadas.
- Oceomeutaiova? – dizia minha mãe fingindo ter a língua inchada e provocando risadas histéricas de suas irmãs, minhas tias.
- Ãiardenoahió é a haioba! – continuava minha tia. Eu não ri, pra falar a verdade. Fiquei estressada com a garganta ardendo.
Só sei que a essa altura tendo perdido a fome fui lavar as louças na pia, e enquanto isso escutava as piadas e risadas acerca da taioba. Elas devem ter ficado uns vinte minutos ali, só rindo. E riam cada vez mais quando chegava uma das primas falando que achava que era couve.
Fiquei ali pensando, todo mundo em volta de uma mesa rindo à toa. Fazia meses que minha mãe não via minha avó e suas irmãs. Puts! Haja reação! – pensei.
Depois de lavar a louça fui pro quarto e voltei pro mundo de Anna Walsh. Tive que comer um monte de doce de leite ninho que minha prima prepara quase que exclusivamente pra mim até a garganta melhorar. Aliás, esse doce já deu o que falar aqui em casa, mas isso é coisa pra outro dia.
Aqui anda bem vazio, mas mesmo assim, feliz ano novo pra todo mundo!
Agora vou arrumar meu quarto que está do avesso com todas essas viagens.
Até já!
Filmes, séries, comida e livros.

